Um antigo comandante da GNR de Fafe, a sua mulher e o seu irmão, acusados de integrarem uma organização criminosa dedicada ao tráfico internacional de cocaína por via marítima, optaram por ficar em silêncio no início do julgamento, que começou esta terça-feira, no Tribunal de S. João Novo, no Porto.
Os três arguidos estão acusados de associação criminosa e tráfico de estupefacientes. O casal, juntamente com uma sociedade gerida por ambos com instalações em Fafe (distrito de Braga), responde ainda pelo crime de branqueamento de capitais. Os dois irmãos encontram-se em prisão preventiva desde agosto de 2025.
Droga dissimulada em peles de bovino no Porto de Leixões
Segundo a acusação do Ministério Público (MP), a rede importava cocaína proveniente da República Dominicana, dissimulada em carregamentos de peles de bovinos encomendados pela empresa do casal.
A 20 de julho de 2025, as autoridades policiais detetaram cerca de 1.300 quilos de cocaína, o equivalente a mais de 5,5 milhões de doses individuais, escondidos no interior de três contentores que atracaram no Porto de Leixões, em Matosinhos.
A Polícia Judiciária (PJ) montou uma operação de vigilância e seguiu a carga até ao armazém da sociedade, em Fafe, onde os contentores foram rececionados pelos dois irmãos a 5 de agosto de 2025, após o desalfandegamento.
Ao abrirem a mercadoria, os arguidos perceberam que esta tinha sido remexida. De acordo com o MP, o antigo militar da GNR tentou então “ensaiar uma versão” para afastar as suspeitas, contactando a GNR local para reportar a existência da droga, ao mesmo tempo que instruiu a companheira para apagar todas as comunicações sobre o transporte. A detenção ocorreu em flagrante nesse mesmo momento.
Antigo militar assumiu culpa e ilicitudes anteriores após detenção
Apesar do silêncio guardado na primeira sessão do julgamento, o tribunal procedeu à leitura do resumo das declarações que o antigo comandante da GNR — que se encontrava de licença sem vencimento — prestou aquando do seu primeiro interrogatório em 2025.
Nesse depoimento, o ex-militar ilibou os restantes familiares, afirmando que a mulher (enfermeira) e o irmão (empresário da construção civil) “nada sabiam” e que a empresa terá servido de fachada. O irmão apenas o ajudaria nas descargas físicas e a mulher nas tarefas administrativas da firma.
O arguido confessou ainda que o carregamento que levou à sua detenção era já o terceiro que realizava desde 2022. Pelos dois primeiros transportes marítimos bem-sucedidos, revelou ter recebido contrapartidas financeiras elevadas:
-
1.º carregamento (2022): 150 mil euros
-
2.º carregamento: 250 mil euros
Após a leitura destas declarações, o coletivo de juízes iniciou a audição das testemunhas de acusação, convocando os investigadores da PJ responsáveis pelo caso. A próxima sessão do julgamento está agendada para a próxima quinta-feira.