Cerca de 20 milhões de crianças e adolescentes entre os 12 e os 17 anos, em 21 países de África, Ásia, América Latina, Caraíbas e Europa de Leste, foram alvo de abusos e exploração sexual através da internet em 2025. A conclusão consta do estudo “Disrupting Harm”, divulgado esta quinta-feira, 3 de setembro, e elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em conjunto com a Interpol e a ECPAT International.

A investigação revela que uma em cada cinco crianças utilizadoras da internet foi aliciada e explorada nas plataformas digitais, sendo que em 57% das situações o agressor já era um conhecido da vítima e, em nove dos países analisados, uma em cada quatro crianças foi abusada por outro menor.

Plataformas afetadas e formas de abuso

Do total de 20 milhões de menores afetados no último ano, 15 milhões foram expostos a conteúdos sexuais indesejados, nove milhões foram solicitados a participar em conversas de teor sexual ou a partilhar imagens contra a sua vontade, e quatro milhões viram imagens íntimas ser divulgadas sem permissão.

A maioria dos episódios (60%) ocorreu em redes sociais — com destaque para o Facebook (50%), WhatsApp (29%), Instagram (24%), Snapchat (13%) e TikTok (12%) —, ocorrendo também 14% das situações em plataformas de jogos online.

O relatório salienta igualmente impactos diferenciados consoante o género: as raparigas são habitualmente ameaçadas com denúncias para manter o silêncio, enquanto nos rapazes os medos são minimizados, é-lhes incutido que devem resolver a situação sozinhos ou surgem ameaças com falsas revelações sobre a sua orientação sexual.

Impacto na saúde mental e falhas na denúncia

Os dados recolhidos demonstram fortes consequências na saúde mental das vítimas, que apresentaram níveis de ansiedade cerca de 11 pontos percentuais acima dos seus pares, quatro vezes mais probabilidade de se automutilarem e quatro vezes mais pensamentos e comportamentos suicidas.

Apesar da dimensão do problema, o estudo aponta para uma falha no sistema de apoio. Mais de quatro em cada 10 crianças não contaram a situação a ninguém e, quando o fizeram, recorreram maioritariamente a amigos, irmãos ou à mãe. Menos de 1% dos casos foi comunicado às autoridades, assistentes sociais ou linhas de apoio, e 25% das vítimas mantiveram o silêncio por não saberem a quem recorrer. Outras crianças admitiram ter omitido os factos por receio de perder o acesso aos dispositivos ou plataformas digitais.

A investigação “Disrupting Harm” baseou-se em inquéritos com representatividade nacional a cerca de 21.000 crianças utilizadoras da internet, entrevistas a mais de 100 jovens sobreviventes de abuso, auscultação de mais de 500 profissionais da linha da frente e agentes da autoridade, além da análise às legislações nacionais. As organizações envolvidas alertam que os dados representam apenas uma fração do problema e que o número global de crianças sujeitas a estes abusos atinge dezenas de milhões.