As dificuldades associadas ao uso do automóvel no acesso ao Porto, designadamente o congestionamento do tráfego e a falta de lugares de estacionamento, estão a impulsionar a utilização combinada de vários meios de transporte público. A conclusão pertence a um estudo científico desenvolvido por investigadores do Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente (CITTA) da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

O artigo “Viajantes intermodais contra monomodais: evidência de um estudo comparativo no Porto”, publicado em junho com base em 3.446 respostas a um inquérito de 2024, analisa as motivações dos utilizadores que combinam transportes (intermodais) face aos que usam apenas um meio de deslocação (monomodais).

Desvantagens do automóvel e incentivos informais

Segundo o investigador João Teixeira, coautor do estudo com Miguel Lopes e António Couto, as desvantagens percecionadas no uso do carro funcionam como um “incentivo informal” para a transição para soluções intermodais. O fenómeno ocorre de forma espontânea, sem que existam políticas públicas municipais diretas de restrição do tráfego automóvel.

A investigação aponta que a intermodalidade surge fortemente associada ao transporte público, enquanto o uso do automóvel sobressai nos comportamentos monomodais. Entre os fatores que levam os utilizadores intermodais a optar pelos transportes públicos destacam-se:

  • Ligações diretas: Referidas por 38% dos intermodais (contra 22% dos monomodais);

  • Alta frequência do serviço: Relevante para 34% dos intermodais (contra 14% dos monomodais);

  • Preço e custos de deslocação: Decisivo para 32% dos intermodais (contra 26% dos monomodais);

  • Rapidez de viagem: Importante para 30% dos intermodais (contra 15% dos monomodais);

  • Preocupações ambientais: Apontadas por 20% dos intermodais (contra 7% dos monomodais);

  • Fuga ao tráfego: Fator motivacional para 18% dos intermodais (contra 7% dos monomodais).

A dificuldade de estacionamento foi também assinalada por 19% dos utilizadores intermodais, face a 12% dos monomodais. Os autores indicam que a adoção de medidas mais assertivas de limitação ao automóvel poderá reforçar a tendência de estacionar na periferia e prosseguir a viagem no Porto através de modos sustentáveis.

Diferenças entre utilizadores “cativos” e com opção de escolha

O estudo identifica duas tipologias distintas no universo de passageiros intermodais. Por um lado, os utilizadores ditos “cativos”, associados a menores rendimentos e qualificações, não têm alternativa ao transporte público e utilizam maioritariamente o autocarro, serviço que avaliam de forma desfavorável devido a falhas na fiabilidade, cancelamentos e atrasos decorrentes do trânsito.

Por outro lado, os passageiros com acesso a viatura própria, mas que optam conscientemente pela intermodalidade devido às suas vantagens, recorrem sobretudo a meios ferroviários, como o metro e o comboio, motivados pela rapidez e cumprimento de horários.