A organização do Primavera Sound Porto afirmou compreender os alertas de saúde emitidos relativamente ao consumo de bolsas de nicotina, mas defendeu que o evento não está a cometer qualquer ilegalidade e que “não se pode substituir à lei”. A reação surge após a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) ter condenado publicamente a “promoção aberta” deste produto no festival, onde um dos palcos principais detém o nome da marca de bolsas de nicotina oral ZYN.

Em declarações à agência Lusa, o diretor do festival, José Barreiro, reagiu à tomada de posição da comunidade médica. “Entendemos perfeitamente a posição da SPP, simplesmente não estamos a fazer nada ilegal. Estamos dentro da lei”, assegurou o promotor.

Organização garante proteção de menores e não fumadores

Segundo José Barreiro, o festival e a marca patrocinadora aplicam políticas restritas de controlo e proteção no recinto do Parque da Cidade:

  • É proibida a venda a menores de 18 anos;

  • Não é incentivada a venda de produtos;

  • Quem não é fumador não é abordado ou contactado pelas ações da marca.

O diretor do Primavera Sound Porto sublinhou ainda as dificuldades económicas sentidas pelos eventos culturais na região. “Se não é um patrocinador ilegal, eu não sei o que mais podemos fazer”, argumentou, apontando a “dificuldade que um festival no Porto tem de atrair patrocinadores”. Relativamente a uma eventual alteração no futuro, José Barreiro foi taxativo: “Se houver legislação sobre a matéria: obviamente seremos primeiros a cumprir”.

O responsável considerou, contudo, positivo que estes alertas existam para que o público “não se sinta tentado a experimentar novos produtos que possam ou não ser viciantes”, remetendo a avaliação e a respetiva regulação para as organizações de saúde competentes.

Pneumologistas criticam “retrocesso lamentável” na saúde pública

A contestação da SPP baseia-se nos riscos associados às bolsas de nicotina — pequenas saquetas colocadas entre o lábio superior e a gengiva que libertam a substância diretamente na corrente sanguínea. Em comunicado, a sociedade médica avisou que os produtos “não são inócuas”, possuindo químicos perigosos e um elevado potencial aditivo.

“Promovê-las num ambiente de festa e lazer é um retrocesso lamentável na saúde pública e uma total falha de responsabilidade social por parte da organização do festival”, criticou Daniel Coutinho, coordenador da Comissão de Trabalho de Tabagismo da SPP.

A associação manifestou a sua “profunda preocupação e total repúdio” pela cedência de naming rights (direitos de nome) do palco à marca ZYN.

O Primavera Sound Porto arranca esta semana no Parque da Cidade, distribuindo as suas atuações por cinco palcos. Destes, quatro contam com designações comerciais associadas a patrocinadores: além da marca de bolsas de nicotina oral, existem palcos com o nome de uma cerveja, de uma empresa de telecomunicações e de uma marca automóvel.

O cartaz de concertos da edição deste ano inclui artistas como Gorillaz, The XX, Massive Attack, Kneecap, Peggy Gou, Big Thief, Viagra Boys, Gisela João, Inês Marques Lucas e o projeto conjunto de Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago.