Há um som peculiar que ecoa na casa da família Silva, em Parada de Todeia, no concelho de Paredes. É o som do piano, tocado com a precisão de um cientista e a sensibilidade de um artista. Sentado ao teclado está Luís Miguel Oliveira Tadeu Silva, um jovem que acaba de assinar um dos percursos mais impressionantes do Ensino Superior em Portugal. Mas, desengane-se quem pensa que esta é apenas uma história sobre notas excecionais. Esta é, acima de tudo, uma história de escolhas, de humanidade e de superação num ano marcado pela dor.

Numa família com fortes raízes profissionais ligadas à Saúde, o guião parecia escrito. As classificações de Luís permitiam-lhe entrar em 1.º lugar em Medicina na FMUP ou no ICBAS, ou ainda liderar as listas de Medicina Dentária na FMDUP e na CESPU. Contudo, o jovem optou por contrariar o destino óbvio. Com uma média de 20 valores no ensino secundário, e notas quase irrepreensíveis nos exames nacionais (20 em Física e Química A e Biologia e Geologia; 19,5 em Matemática A), teve a ousadia de seguir a sua verdadeira paixão.

Colocado em 2.º lugar em Engenharia Aeroespacial na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), o curso com a média de acesso mais alta do país (19,50 valores), Luís prepara-se para ser o primeiro engenheiro da família.

De Coimbra à Colômbia: a Física como linguagem

O percurso académico de Luís extravasa as paredes da escola tradicional. O fascínio pelo rigor científico levou-o a integrar o restrito Top 3 nacional no processo de seleção para a 56.ª Olimpíada Internacional de Física (IPhO 2026).

Para lá chegar, a dedicação foi absoluta. Entre janeiro e junho, viajou mensalmente até à Universidade de Coimbra para sessões intensivas no âmbito do Projeto Quark!. O esforço culminou em julho, na cidade de Bucaramanga, na Colômbia, onde representou as cores de Portugal entre os melhores jovens estudantes do mundo, enfrentando duas exaustivas provas de quatro horas.

A melodia, as peças e a cidadania

Onde muitos veriam um perfil exclusivamente dedicado às ciências exatas, Luís revela uma multiplicidade de talentos invulgar. Concluiu o Conservatório de Música com a nota máxima (20 valores) e garantiu ainda a admissão na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE).

A música nunca ficou para segundo plano. O piano é o seu refúgio, e os ensaios e concertos com o seu grupo, “Os Artischtas”, são rotina intocável. Pelo meio, revela um interesse ativo pela sociedade (participou no Parlamento dos Jovens nos últimos dois anos) e ainda encontrou tempo para se sagrar campeão e vice-campeão ibérico de um clássico dos videojogos: o Tetris.

O luto, a resiliência e o “companheiro de armas”

Tudo isto seria notável em qualquer circunstância, mas o último ano exigiu a Luís uma maturidade muito além da sua idade. Os meses de exames, seleções e escolhas de vida cruzaram-se com perdas familiares profundas: a da bisavó e a do avô, a quem o jovem carinhosamente chamava de o seu “companheiro de armas”.

Foi com o peso dessa saudade, trabalhando em silêncio e transformando o luto em força motriz, que continuou a perseguir a excelência. Não abdicou da sua essência, dos amigos, da banda, nem sequer do jogo de padel semanal com o pai, Fausto Tadeu, um momento sagrado de partilha entre os dois.

Hoje, em Parada de Todeia, não se celebra apenas um cérebro brilhante que vai estudar engenharia. Celebra-se um jovem humilde, resiliente e determinado que provou ser possível harmonizar a exigência da Física com a sensibilidade da música e o amor à família. Onde quer que esteja, o “companheiro de armas” terá, decerto, motivos de sobra para sorrir.

Imagens provenientes do Facebook de Fausto Tadeu.