O Programa de Intervenção em Gaming Problemático, um projeto do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD) direcionado para o tratamento da dependência de videojogos, arrancou nesta segunda-feira, dia 29 de junho, em Matosinhos. A nova unidade especializada terá capacidade para acompanhar cerca de 100 jovens num período de um ano e meio a dois anos. A cerimónia oficial de inauguração da estrutura contou com a participação da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e do novo presidente da Unidade Local de Saúde de Matosinhos (ULSM), Nelson Pereira.

O programa vai funcionar nas instalações do antigo hospital de Matosinhos, na Rua Alfredo Cunha, onde já opera a Consulta Especializada do Centro de Respostas Integradas (CRI) do Porto Ocidental. O responsável pelo projeto, o psiquiatra e perito em gaming Mário Santos, apontou como meta inicial chegar a centenas de pessoas na região Norte, admitindo a expansão futura da resposta a outras zonas do país, por via presencial ou remota, em articulação com a unidade de intervenção no jogo já existente em Lisboa. O clínico revelou que a procura estruturada deverá aumentar, face às várias dezenas de jovens que já vinham a recorrer às diferentes unidades do ICAD a nível nacional nos últimos anos devido a esta patologia.

Reconhecido como patologia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) desde 2018, o gaming problemático afeta maioritariamente indivíduos entre os 12 e os 24 anos e caracteriza-se pelo uso compulsivo de videojogos em detrimento de vertentes fundamentais da vida quotidiana. Mário Santos explicou que o principal sinal de alerta é a “perda de controlo”, visível quando o utilizador abdica do trabalho, das relações pessoais ou das obrigações escolares, deixando inclusivamente de sentir prazer na atividade. O especialista alertou ainda para comorbilidades associadas à dependência, como quadros de ansiedade, sintomas depressivos e a degradação da qualidade do sono e da alimentação.

A presidente do ICAD, Joana Teixeira, destacou que a inclusão de jovens a partir dos 12 anos diferencia o programa português no plano internacional. Esta decisão baseia-se em estudos que identificam o surgimento de perfis problemáticos logo no terceiro ciclo do ensino básico. O modelo de tratamento compreende um percurso de oito a dez meses com sessões individuais em regime de ambulatório e foco na terapia familiar estruturada. O programa disponibiliza ainda um ano adicional de seguimento para consolidação de resultados, facultando a opção de intervenção grupal. A equipa clínica é constituída por psiquiatras e pedopsiquiatras, sendo que a referenciação dos utentes para a unidade deverá ser feita, numa primeira abordagem, através do médico de família.