A Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) da Unidade Local de Saúde de São João (ULSSJ), no Porto, está a testar a realização de transfusões de sangue total diretamente no local de acidentes graves. A prática, comum em cenários de guerra e já implementada em vários países da NATO, visa travar hemorragias maciças no pré-hospitalar e aumentar a sobrevivência das vítimas de trauma grave em Portugal, onde o procedimento até agora só era feito à chegada ao hospital.
O projeto-piloto chama-se STOPTEX e junta a Medicina Intensiva e a Imunohemoterapia da ULSSJ à VMER, contando com o apoio do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). O objetivo principal é determinar a exequibilidade e segurança da administração emergente de sangue total em ambiente de rua, estabilizando os doentes em risco de exsanguinação (perda de sangue maciça) — a principal causa de mortalidade evitável nos países desenvolvidos, estimando-se que metade destas mortes ocorra nos primeiros minutos após o trauma.
Quatro doentes transfundidos no terreno desde janeiro
Em balanço à agência Lusa, a coordenadora da VMER do São João, Sofia Rocha da Silva, revelou que, desde janeiro, quatro pessoas já receberam transfusões no terreno:
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Dois doentes encontram-se em recuperação completa da sua autonomia;
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Uma doente faleceu aos 30 dias de internamento (por motivos já não relacionados diretamente com o traumatismo);
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Um doente apresentava lesões inicialmente incompatíveis com a vida.
«Acredito piamente que podemos mudar aquilo que é o trauma, os acidentes de viação, os acidentes por armas de fogo, armas perfurantes e outras armas brancas, mudar o curso daquilo que são muitas mortes na rua», afirmou a coordenadora, sublinhando que o sangue no local permite “ganhar tempo” até ao controlo definitivo da hemorragia no hospital.
Para tornar o projeto viável, a ULSSJ criou um banco de sangue específico e os carros foram dotados de frigoríficos testados e validados pelo INEM para garantir o transporte rigoroso e as temperaturas adequadas do sangue.
Apelo a dadores: Hospital precisa de homens do grupo O
O uso de sangue total fornece todos os componentes sanguíneos em proporções fisiológicas, acelerando a estabilização do paciente e diminuindo complicações inflamatórias. No entanto, este projeto inovador exige um perfil muito específico de dadores.
Carla Monteiro, médica do serviço de sangue do Hospital de São João, explicou à Lusa que são necessários homens do grupo sanguíneo O. A triagem é rigorosa: os dadores selecionados têm de apresentar níveis muito baixos de anticorpos no plasma, permitindo que as unidades de sangue sejam aplicadas de imediato em contexto de emergência na rua, sem necessidade de realizar testes prévios de compatibilidade.
O trauma continua a ser a principal causa de mortalidade na população jovem. Em 2023, Portugal registou mais de 1,5 milhões de ocorrências pré-hospitalares, sendo que cerca de 20% estiveram diretamente relacionadas com situações de trauma.