Cerca de 200 pessoas, segundo dados da organização, manifestaram-se esta quarta-feira, 10 de junho, no Porto, em memória das vítimas de crimes de ódio em Portugal. Este foi o primeiro protesto sobre esta temática organizado na cidade a coincidir com o Dia de Portugal, tendo sido promovido em conjunto pela associação Vida Justa e pelo SOS Racismo.

A concentração começou na Praça Marquês de Pombal e avançou até ao Campo 24 de Agosto, um percurso marcado pela evocação de episódios de violência e pela contestação aos discursos de discriminação.

O simbolismo do percurso e da data

De acordo com as declarações dos organizadores à Agência Lusa, os locais e a data escolhidos carregam uma forte componente de memória histórica:

  • Campo 24 de Agosto: Aline Rossi, da associação Vida Justa, lembrou que foi neste local que, há dois anos, dois imigrantes argelinos foram brutalmente espancados por um grupo neonazi.

  • Memória de Alcindo Monteiro: A manifestação serviu também para resgatar a memória de Alcindo Monteiro, assassinado há 31 anos em Lisboa.

  • Dia de Portugal: Joana Santos, do SOS Racismo, justificou a escolha do feriado nacional afirmando que o Dia de Portugal é de todos e não deve ser apropriado por uma ideia de identidade portuguesa ligada ao colonialismo ou ao tempo da ditadura do Estado Novo.

Preocupação com o contexto político e social

Aline Rossi alertou para um crescendo dos crimes de ódio, associando-o ao endurecimento das leis para os imigrantes, tanto no Parlamento Europeu como na Assembleia da República em Portugal, referindo que estas decisões políticas têm consequências reais na violência diária.

A ativista sublinhou ainda a dificuldade de mobilizar pessoas migrantes e em situação de grande precariedade neste dia, uma vez que muitas trabalham durante o feriado em centros comerciais, na agricultura, nos transportes e em plataformas de entrega ou transporte de passageiros.

Por seu lado, Joana Santos manifestou preocupação com a legitimação de um discurso violento contra pessoas migrantes e racializadas, que tem tomado espaço nas redes sociais e no parlamento através de grupos de caráter informal ou encapotado. Apesar disso, a responsável do SOS Racismo destacou o crescimento de um movimento social antirracista e a tomada de voz pública por parte de minorias éticas, nomeadamente da comunidade cigana.

Visibilidade da Extrema-Direita

Questionada sobre o aumento dos crimes de ódio na última década, Joana Santos defendeu que o fenómeno esteve historicamente “escondido” em Portugal devido ao passado colonial.

Segundo a responsável, a visibilidade atual dos grupos de extrema-direita revela um “ressabiamento quanto a uma perda de um imaginário do Império Português”, apontando que, no passado, “havia um bocadinho mais de vergonha” na verbalização de ideias e comportamentos racistas.