No café Quinta Amarela, localizado junto à estação de metro da Casa da Música, no Porto, as embalagens com depósito do sistema ‘Volta’ são entregues diariamente a um cliente habitual com poucas posses. A medida informal, adotada por este negócio familiar aberto desde 2002, surge como uma forma de apoio social, mas também como resposta às dificuldades logísticas e contabilísticas do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR).
Em declarações à agência Lusa, David Leite explicou que o cliente retira do espaço “no mínimo cinco euros por dia”, o que corresponde a pelo menos meia centena de embalagens entre garrafas de água e latas de refrigerante. No entanto, o responsável expressou preocupação relativamente à gestão de stock e à correta catalogação contabilística destes recipientes, cujos montantes de reembolso podem atingir milhares de euros com o avolumar das encomendas.
Comerciantes pedem recolha no local e reformulação
David Leite defende uma “reformulação do sistema” para os estabelecimentos comerciais, apontando incoerências na aplicação do depósito — como a cobrança da taxa dependendo de o produto ser consumido no local ou levado para fora —, além da falta de informação generalizada. O comerciante critica a necessidade de ter de deslocar viaturas próprias e aguardar em filas com sacos de embalagens após o horário de trabalho, defendendo que a recolha deveria ser realizada nos próprios estabelecimentos, medida que considera poder também fomentar a criação de emprego. A exigência de recolha no local é partilhada por outros gerentes da restauração do centro da cidade.
Em contrapartida, noutros espaços visitados pela Lusa, a devolução das embalagens é mantida pelos próprios comerciantes devido a questões de gestão contabilística, apesar do contacto constante com pessoas que solicitam garrafas e latas para devolução.
Fim do período de transição do sistema ‘Volta’
Em funcionamento desde 10 de abril, o SDR permite a devolução de 10 cêntimos por cada embalagem de uso único de plástico, metal e alumínio (inferior a três litros) entregue num dos mais de 2.500 pontos ‘Volta’ distribuídos pelo país. O período de transição do sistema termina esta segunda-feira, passando a ser obrigatório que todas as embalagens de bebidas colocadas no mercado integrem o mecanismo.
O sistema visa alcançar metas de recolha de 40% este ano, subindo progressivamente para 80% em 2027, 85% em 2028 e 90% a partir de 2029. Atualmente, cerca de 54% dos resíduos urbanos em Portugal ainda são encaminhados para aterros, muitos dos quais próximos da capacidade máxima, sendo o cumprimento destas metas considerado essencial para evitar multas europeias ao Estado Português.