Adolescentes estão a criar e a divulgar imagens falsas de colegas nuas (nudes) com recurso a aplicações de Inteligência Artificial (IA), uma prática vista pelos jovens como uma brincadeira, mas que constitui crime e já resultou em condenações em tribunal, alertou a Polícia Judiciária (PJ).

Contactada pela Lusa, segundo a PJ, os primeiros registos remontam a 2024, a maioria dos casos é denunciada pelas escolas e envolve autores entre os 12 e os 16 anos, que partilham os conteúdos em grupos de WhatsApp. Embora o corpo seja falso e apenas o rosto seja real, a difusão destas imagens pode configurar o crime de pornografia de menores, punível com pena de prisão até três anos.

Medidas tutelares, arguidos e extorsão

A PJ explicou que, sendo a maioria dos autores menor de idade, as situações são encaminhadas para o Tribunal de Família e Menores, com vista à aplicação de medidas de reeducação no âmbito da Lei Tutelar Educativa. Contudo, no caso de suspeitos com mais de 16 anos, já houve constituição de arguidos, nomeadamente em situações de perseguição online ou para denegrir a imagem de ex-namoradas, existindo inquéritos que resultaram em acusações e condenações.

A Polícia Judiciária identificou ainda casos em que as vítimas foram coagidas a enviar fotografias reais de cariz sexual sob a ameaça de divulgação das imagens manipuladas por IA.

Mais de 90% das vítimas são raparigas

A proliferação deste fenómeno é também acompanhada pelo programa “Escola Segura” da GNR e pela Linha Internet Segura, gerida pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).

  • Crimes associados: O chefe da Repartição de Policiamento Comunitário da GNR, Sérgio Fonseca, alertou que a prática pode envolver crimes de devassa da vida privada, difamação, coação, ameaças e extorsão.

  • Perfil e circulação: Carolina Soares, da APAV, revelou que em mais de 90% dos casos as vítimas são raparigas. Os autores retiram fotografias inócuas do Instagram das colegas e alteram-nas.

  • Persistência dos conteúdos: As imagens falsas circulam em stories, chats e grupos do Instagram e WhatsApp na forma de memes ou gifs.

Apesar de ser possível retirar os conteúdos das plataformas, a PJ e a APAV alertam que nada impede a sua re-partilha e que os ficheiros tendem a permanecer guardados nos telemóveis de quem os recebe.

Fonte: Agência Lusa