Um novo relatório europeu alerta que o aumento contínuo das dimensões dos automóveis está a colocar em risco a segurança rodoviária, o espaço público e a eficiência energética. O estudo, publicado pela Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (T&E) e pela Clean Cities Campaign — redes das quais a associação ambientalista portuguesa ZERO faz parte —, traça um cenário crítico até 2040 caso não sejam aplicadas políticas de “redimensionamento adequado” no setor automóvel.

Os dados estatísticos revelam que, desde o ano 2000, o comprimento médio dos novos veículos tem crescido 1,2 centímetros por ano, enquanto a altura e a largura aumentam, em média, 0,5 centímetros anualmente. Esta expansão dos veículos ligeiros contrasta diretamente com a demografia atual, marcada pela redução da dimensão média dos agregados familiares (fixada em 2,3 pessoas em 2025) e por uma baixa taxa de ocupação das viaturas.

No campo da segurança rodoviária, o estudo projeta que a manutenção desta tendência resultará num agravamento do número de vítimas entre os utilizadores vulneráveis, como peões e ciclistas, comprometendo o objetivo europeu “Vision Zero”. Estima-se que, no período acumulado entre 2026 e 2040, o excesso de volume automóvel poderá ser responsável por mais 2.500 mortes de adultos e 79 mortes de crianças nas estradas europeias, face a um cenário de veículos mais compactos. O aumento da altura dos capots é apontado como um risco particularmente fatal para os mais novos, prevendo-se uma subida de 40% no número de crianças vítimas mortais de atropelamento, devido à maior probabilidade de sofrerem impactos na cabeça ou no tórax.

O impacto estende-se diretamente à gestão do espaço urbano. Com cerca de 50% do espaço público das cidades europeias já afeto ao transporte rodoviário, a expansão física dos veículos poderá eliminar entre 8,5% e 14% dos lugares de estacionamento em superfície até 2040. Em Portugal, a ZERO alerta que esta pressão adicional agravará problemas urbanísticos crónicos, promovendo o estacionamento ilegal e limitando áreas essenciais para passeios, ciclovias, faixas BUS e arborização.

A nível económico e ambiental, o relatório quantifica o desperdício provocado pela deslocação de viaturas mais pesadas e volumosas. No segmento dos veículos elétricos, o consumo adicional acumulado até 2040 poderá atingir os 116 TWh na União Europeia e Reino Unido, o que se traduziria num custo extra de 36 mil milhões de euros nas faturas de carregamento das famílias. Nos modelos a combustão, a fatura energética adicional é calculada em 100 milhões de barris de petróleo, o equivalente a cerca de 10 mil milhões de euros.

Perante as conclusões do estudo, a ZERO apela à adoção urgente de medidas políticas. A nível europeu, a associação defende a introdução de limites de homologação, fixando a altura máxima do capot em 85 centímetros e a largura total em 192 centímetros, aplicáveis a todos os novos veículos comercializados a partir de 2036. A nível nacional, as propostas passam por uma reforma fiscal que agrave impostos como o IUC e o ISV para veículos maiores, pelo ajuste das tarifas de portagem e de estacionamento municipal consoante a dimensão automóvel, e pela promoção de viaturas elétricas compactas com menos de 4,2 metros de comprimento.