O Património Cultural, I.P. aprovou a revisão do registo da manifestação “Endoenças de Entre-os-Rios (Penafiel e Marco de Canaveses)” no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI). A decisão, validada através de um despacho do Presidente do Conselho Diretivo datado de 27 de maio de 2026, foi publicada no dia 2 de junho em Diário da República, através do Anúncio n.º 128/2026.

Com este procedimento, que decorre da obrigatoriedade legal de rever as inscrições no INPCI passados 10 anos da sua integração inicial (ocorrida a 6 de agosto de 2015), o Estado português volta a reconhecer a profunda relevância histórica e identitária desta celebração secular, cujas origens remontam, pelo menos, ao século XVII.

Uma celebração única moldada pelas margens do Douro e do Tâmega

A designação “Endoenças” refere-se, na sua génese, à procissão que recolhe os fiéis na noite de Quinta-Feira Santa, promovendo o arrependimento, a penitência e o pedido de indulgência no âmbito do ciclo pascal da Igreja Católica. Contudo, na linguagem comum da região, o termo estende-se a todas as vivências da Semana Santa, incluindo a Sexta-Feira da Paixão.

A dinâmica ritual cumpre um itinerário simétrico:

  • Quinta-Feira de Endoenças: Realiza-se a Procissão do Senhor dos Passos e o célebre sermão “do Encontro”.

  • Sexta-Feira da Paixão: A Procissão do Senhor Morto faz o percurso inverso, regressando à igreja matriz, onde no sábado se celebra a “aleluia”.

A verdadeira singularidade das Endoenças de Entre-os-Rios não reside apenas na vertente litúrgica, mas sim na sua geografia humana e histórica. A celebração une uma comunidade ribeirinha invulgar que ultrapassa as fronteiras de uma única paróquia ou freguesia. Trata-se de um território que, há oito séculos, se divide por três margens de rios outrora difíceis de atravessar — o Douro e o Tâmega —, herdando os limites geográficos do antigo couto medieval de Santa Clara do Torrão.

O cenário natural da foz do Tâmega confere ao evento uma espetacularidade única. Se no passado a procissão obrigava à travessia em barcos, hoje a tradição mantém-se viva e impressionante através da iluminação noturna, momento em que milhares de lumes são acesos nas encostas e junto à borda da água, desenhando um anfiteatro de luz deslumbrante.

Comunidade e autarquias de braço dado na preservação

Embora seja uma manifestação de matriz católica, o envolvimento nas Endoenças transcende a prática religiosa regular. A população local assume o evento como um pilar da sua identidade anual, onde cada habitante desempenha um papel flutuante ao longo dos anos: seja como mordomo, pagador de promessa, penitente ou mero espectador participante.

A organização da festividade resulta de um esforço conjunto entre:

  • Mordomos anuais (paroquianos mobilizados para o efeito);

  • Estruturas ligadas ao culto (pároco, zeladores da igreja, responsáveis pela catequese e catecúmenos);

  • Poderes autárquicos (Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia).

O principal motor de transmissão geracional continua a ser a própria população, responsável por ornamentar o espaço público e privado, acolher os familiares na diáspora, salvaguardar a gastronomia tradicional e perpetuar a memória coletiva destas vivências. O pedido de revisão do registo agora aprovado foi submetido pela Câmara Municipal de Penafiel, trabalhando em estreita proximidade com a comunidade local.

Município de Penafiel reage com satisfação

Em comunicado, o Município de Penafiel já manifestou publicamente a sua satisfação com a validação desta revisão por parte do Património Cultural, I.P.

A autarquia penafidelense sublinhou que esta decisão reafirma a importância desta tradição secular partilhada com o município vizinho de Marco de Canaveses, classificando-a como uma “expressão viva da identidade, da memória e da tradição das comunidades locais”. O município fez ainda questão de destacar o papel crucial que as populações, as paróquias e as associações locais desempenham diariamente na preservação e na transmissão contínua desta celebração de forte vitalidade cultural.